Ainda um longo caminho a trilhar
Gazeta Mercantil - 16 de novembro de 2006 - Segundo pesquisa, somente 3,4% dos negros chegam a cargos executivos nas empresas
Por Sheila Horvath
Na próxima segunda-feira será comemorado o dia da Consciência Negra e é um bom momento para uma avaliação de como os negros estão participando da vida executiva brasileira. Infelizmente, o quadro ainda não é dos melhores. Na economia, segundo o IBGE, os negros respondem por 46% da população economicamente ativa, de um universo de 96 milhões de trabalhadores que existem no Brasil. Somam, portanto, mais de 44 milhões, mas respondem por apenas 3,4% dos cargos executivos. Dentro desse total, 9% estão em cargos de gerência; 13,5% nos de supervisão; e 26,4% em quadros funcionais. Isso nas 500 maiores empresas do País.
Os dados são resultado de uma pesquisa do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social e do Ibope Opinião, em parceria com a Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Eaesp), o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem) e são comentados por José Vicente, presidente da Ong Afrobrás (Sociedade Afro-brasileira de Desenvolvimento Sócio-cultural) e reitor da Unipalmares - Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares.
"Na verdade, o Brasil vem passando por uma transformação desde 1988 com a nova Constituição, que previa a pluralidade social", afirma Vicente. "De lá para cá, muitos fatores foram fundamentais para a mudança da participação dos negros no quadro empresarial", continua. Vicente cita uma nova abordagem da mídia - os negros deixaram de ser somente os empregados - e também uma mudança na postura social. "O Brasil assumiu um compromisso contra qualquer forma de racismo", diz.
Um outro ponto comentado pelo reitor é o surgimento de um grande número de universidades particulares a partir de 1990, o que, de certa forma, propiciou aos negros mais oportunidades para chegar ao ensino superior. "Claro que existe um limitador natural, como a capacidade financeira, mas com muitos tendo acesso, pelo menos alguns terminam o curso."
Voltando à pesquisa, dentro das empresas que praticam medidas de equidade e responsabilidade social, num quadro medido de nove tópicos de políticas e ações específicas, os negros ocupam a última posição, sendo a penúltima ocupada pelos ex-detentos. Os resultados relacionados às pessoas com deficiência são os mais otimistas. Houve um salto na participação delas de 3,5%, em 2003, para 13,6%, em 2005.
No que diz respeito ao quadro funcional, o levantamento mostra uma evolução positiva para os negros: em 2003 eles representavam 23% dos funcionários; em 2005, o percentual passou para 26,4%. Já para o cargo de diretoria, a participação praticamente dobrou e passou de 1,8%, em 2003, para 3,4%, em 2005.
A pesquisa também faz distinção entre os sexos: a mulher negra é ainda mais desfavorecida. Ela representa 8,2% das mulheres gerentes e 4,4% das diretoras. O que chama a atenção é o fato de haver mais mulheres de raça amarela em cargos de gerência e de diretoria do que de raça negra. Isso apesar de as primeiras terem uma participação bem menor na população brasileira.
Para José Vicente, a abertura das cotas para os negros nas universidades federais foi um passo muito importante para tentar modificar os números apresentados pela pesquisa. "Apesar das discussões que esse assunto gerou, o sistema de cotas é positivo e aos poucos se tornará uma coisa natural", comenta o reitor da Unipalmares.
A Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares foi criada há três anos para oferecer aos negros uma oportunidade de cursar o ensino superior. Atualmente, os cursos ministrados incluem os de administração de empresas, administração financeira, comércio eletrônico e comércio exterior. O valor da mensalidade é de R$ 260. "Atualmente, 70% dos alunos são negros e 47% do corpo docente também é formado por professores negros", afirma Vicente. "O objetivo da universidade é promover a integração de negros e não-negros em ambiente favorável à discussão da diversidade racial, no contexto da realidade nacional e internacional", afirma.
Um exemplo de quem está na luta é Douglas Henriques Bernardo Barbosa. Ele está cursando o segundo ano de administração financeira na Unipalmares e atualmente faz estágio no Citibank. "Conheci a Unipalmares durante a cerimônia de entrega do troféu Raça Negra e iniciei o curso de administração", conta Barbosa. O estagiário iniciou um curso em uma outra universidade, "mas não consegui terminar, pois os gastos com mensalidade e material didático subiram muito".
Barbosa, que sempre estudou em escolas públicas, participou do processo seletivo do banco quando ainda cursava o primeiro ano de faculdade. "É preciso estar muito preparado, pois o programa de estágio inclui também alunos de outras universidades", afirma Barbosa. "Hoje, apesar das dificuldades, há também inúmeras oportunidades e é preciso aproveitá-las e se dedicar a elas com muito empenho", finaliza o estudante, que pretende seguir carreira na instituição.


