Após dois anos, trabalho da CPI não deu resultado
Correio Braziliense - 23 de novembro de 2006 - Casos de exploração sexual apurados por comissão parlamentar não foram levados adiante. Projetos de lei ainda estão à espera de votação
Por Erika Klingl
Mais de dois anos depois da aprovação do relatório final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investigou as redes de exploração sexual de crianças e adolescentes, praticamente, nada mudou. Nem mesmo os projetos de lei apresentados no fim do relatório, apresentado em 2004, foram aprovados pelo Congresso. A rede de enfrentamento da violência sexual contra meninos e meninas, formada por conselhos tutelares, centros de assistência social, polícias e o Ministério Público, entre outros órgãos, desconhece os rumos das investigações. Não se sabe, por exemplo, se agenciadores denunciados no relatório foram presos, se redes de exploração foram desmanteladas e se as meninas saíram da situação de vítimas.
“Toda a apuração do Congresso mexeu muito na vida dos meninos e das meninas que foram ouvidos. Foi provocada notoriedade do fato, das vítimas, mas os agressores não foram presos”, afirma Nelma Pereira da Silva, coordenadora do Centros de Defesa da Criança e do Adolescente do Maranhão (Cecria). “Tudo isso causa impunidade que é destrutiva em casos de exploração sexual.”
Para se ter uma idéia do problema, Mariana (nome fictício), de 15 anos, depôs para a CPMI no início de 2004, em Cuiabá (MS). Na época, ela era vítima de uma rede de exploradores em Alta Floresta, localizada no norte do estado. A garota denunciou que era explorada por uma rede de prostituição na área de garimpo. Meses depois, quando voltou a cidade, foi espancada nas ruas pelas meninas que ainda trabalhavam no bordel. Hoje, a menina está refugiada em Cuiabá, longe da família e dos amigos.
Nelma coordena, dentro da Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente (Anced), uma pesquisa sobre o andamento das denúncias da CPI. O resultado preliminar é desolador. No estado de Mariana, a rede de enfrentamento informou que não recebeu o relatório com informações suficientes para levar a investigação adiante. “Estamos de mãos atadas”, reclama Carlos Alberto Caetano, do Cecria de Mato Grosso.
Resposta
A ausência de respostas revolta as integrantes da CPMI. “O aprofundamento das investigações realmente não foi feito, mesmo com todas as cobranças”, informa a senadora Patrícia Saboya (PSB-CE), que foi presidente da CPI e é coordenadora da Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente. “Há uma paralisia total. É frustrante porque fica claro que não consolidamos o sistema de proteção da infância”, completa a relatora da CPI, Maria do Rosário (PT-RS).
Não há um culpado único pela falta de continuidade dos trabalhos da CPI. Existe uma conjugação de fatores. A Mesa Diretora do Senado, responsável por guardar os documentos, encaminha o relatório sem documentos probatórios para os ministérios públicos estaduais, as secretarias de segurança e órgãos do judiciário.
Cabe a cada instituição solicitar os documentos que interessam à investigação, como nomes e endereços das vítimas e dos aliciadores. “Não podemos distribuir documentos sigilosos sem saber o objetivo de quem está solicitando”, argumenta Patrícia Saboya. O problema é que são raros os que pedem os papéis e, ao mesmo tempo, conseguem cumprir toda a burocracia. “Tentamos quatro vezes conseguir o relatório completo”, reclama Rinaldo Segundo, promotor de Poconé, cidade localizada a 120 km de Cuiabá.
Também está atrasada a tramitação dos projetos de lei modificando a legislação penal dos crimes de exploração sexual. As quatro propostas foram aprovadas no Senado, mas estão parados há mais de um ano na Câmara. O mais importante deles é o que muda o Código Penal, de 1941. A proposta começa sugerindo que a nomenclatura “crimes contra os costumes”, dê lugar a “crimes contra a liberdade e o desenvolvimento sexual”. Além disso, a proposta prevê a retirada da expressões como “mulher honesta”. Além de suprimir tais formulações, o projeto cria novo tipo penal que não distingue a violência sexual por serem vítimas pessoas do sexo masculino ou feminino e aumenta as penas para crimes de exploração.
SENADO DISCUTE SOBRE ABUSO
O caderno Inocência Perdida, publicado ontem pelo Correio, foi citado pela vice-presidente da Comissão de Assuntos Sociais do Senado, senadora Patrícia Saboya Gomes (PSB-CE), para argumentar sobre a importância da aprovação de emenda que prevê recursos para beneficiar, com programas de inclusão e capacitação, as meninas que sofreram abusos e violência sexual. “O Brasil precisa enfrentar esse problema e adotar políticas sociais para dar perspectivas a essas crianças. As meninas que sofreram abusos muitas vezes estão matriculadas nas escolas, mas não vão às aulas. Elas precisam ser novamente incluídas em programas sociais e educacionais”, disse a senadora, que foi presidente da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Exploração Sexual. Foram aprovados R$ 100 milhões para a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, da Presidência da República, destinados a programas de capacitação de meninas que sofreram violência sexual.


