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Balseiras exploradas

Correio Braziliense - 26 de novembro de 2006 - Dentro do Rio Tocantins, às margens da Ilha de Marajó, no Pará, jovens adolescentes se entregam a homens dentro de embarcações. Em troca de combustível, acabam se tornando vítimas da prostituição

Por Erika Klingl

    São pouco mais de 13h e o calor passa de 35ºC na Ilha de Marajó, no Pará. A vasta baía do Rio Tocantins estava praticamente vazia. A não ser por duas pequenas canoas, situadas a pouco mais de 150m da margem do rio. Dentro de cada casquinho, nome dado aos pequenos barcos feitos de toras de árvores, estão três meninas. Elas estão precariamente equilibradas em cada uma das duas embarcações, no meio do rio. As idades: entre 13 e 17 anos. Elas esperam em silêncio. No fundo da canoa, 20 litros de combustível. A cena ganha movimento quando adentra na baía um barco a motor. Está rebocando uma chata carregada de madeira. Uma das meninas pega um espelho, de estojo de maquiagem, e faz um sinal para o barco com o reflexo do sol. Os marinheiros respondem.

    Ao perceber que há interesse, as garotas começam a remar apressadamente. Trabalham em conjunto para vencer a correnteza do rio que fica ainda mais forte com as ondas provocadas pela passagem da embarcação, 20 vezes maior que o casquinho delas. O reflexo do espelho é usado novamente. É um aviso: os marinheiros devem diminuir a velocidade.

    Quando estão lado a lado, uma das meninas atira uma corda, agarrada em seguida por um dos homens dentro do barco. Em seguida, os casquinhos estão amarrados ao barco. As meninas sobem a bordo. Lá, serão prostituídas pelos 15 marinheiros em troca de óleo diesel. “Dinheiro eles não têm. E o óleo serve para vender”, conta Ana Lúcia, 15 anos. O combustível vai ser repassado aos homens das comunidades ribeirinhas ou outros exploradores.

    Concluído o programa, as meninas voltam aos seus casquinhos. Isso não quer dizer, no entanto, que voltarão para casa. Na maioria das vezes, ficam à espera de outra embarcação. Há casos em que passam dias longe de casa, no rio. Como faziam os pais pescadores. Conhecidas como balseiras, as vítimas de exploração sexual no Rio Tocantins são uma realidade cada vez mais comum na região.

    Espalhadas por toda Ilha de Marajó, a maior do mundo banhada ao mesmo tempo por mar e rio, localizada no Delta do Amazonas, as balseiras aproveitam o trânsito de cargas e madeiras transportadas de Manaus (AM) e Macapá (AP) para Belém. A passagem pelos canais da ilha é quase obrigatória para os marinheiros. É um atalho seguro.

    No ritmo, algumas das balseiras vão mudando de embarcação e de exploradores com tanta freqüência que acabam indo de Breves até Soure — os dois municípios que ficam em posições opostas na ilha. Na região, todo mundo sabe das balseiras. Mas o assunto é proibido.

Questão cultural

“A vida das balseiras já é praticamente uma questão cultural nas comunidades ribeirinhas da Região Norte. A avó foi balseira, a mãe também. A menina acaba seguindo o caminho das mulheres da família”, observa Ane Cristina Siqueira da Rocha, psicóloga da Secretaria de Assistência Social de Muaná, um dos maiores municípios da ilha, com 25 mil habitantes.

    As seis meninas balseiras flagradas pela reportagem do Correio são de Ponta Negra, localizada uma hora de barco de Muaná, comunidade ribeirinha com pouco mais de mil moradores. No mesmo dia, outras sete garotas saíram em seus barcos para serem exploradas sexualmente. Todas entraram em barcos de transporte de cargas. Nenhuma voltou nas cinco horas que a reportagem permaneceu na comunidade.

    Em Ponta Negra, assim como no resto da Ilha de Marajó, todos dependem do rio para viver. Seja da pesca de camarão e de peixe, do transporte do açaí para Belém, a capital do estado, ou da exploração sexual. “O dinheiro conseguido com a venda do óleo diesel pode ser o único que elas vão conseguir. Não há trabalho para os jovens aqui na ilha”, completa Ane. “Não há lazer ou qualquer atividade lúdica.”

    Não é de se espantar que o local pareça abandonado. Para chegar até Muaná, é necessário enfrentar mais de sete horas de viagem em uma embarcação de passageiros. A viagem, que normalmente ocorre à noite por causa do calor, custa R$ 10. Isso se o passageiro for dormir na própria rede. Pagará R$ 25, caso queira uma das quatro cabines com cama e ventilador.

    Apenas os barcos grandes são capazes de cruzar a baía. As embarcações menores são vencidas pelas grandes ondas que se formam por causa do encontro da água do rio com a do mar. Há risco de virarem. Para os inexperientes, é fundamental tomar remédio contra enjôo ou a viagem se torna insuportável. Mas, esse risco as balseiras não correm. Passam boa parte da infância e da adolescência dentro do rio, tentando vencer as ondas. Mas também a miséria, a desigualdade e a falta de futuro.

Esforço

    É difícil descobrir a idade de Ana Lúcia apenas avaliando a menina. Ela fala como uma garota de 15 anos. Tem rosto de uma garota de 15 anos. Sonha como uma garota de 15 anos. Mas suas mãos são cheias de calos e seus ombros são largos como uma nadadora dos Jogos Pan-Americanos. A culpa é do esforço que ela e suas amigas precisam fazer para remar contra a correnteza e alcançar a embarcação. Depois, ainda têm que escalar o barco e amarrá-lo com força. Tudo para evitar que a canoa se perca nas águas.

    Também contribui para o porte físico das meninas o fato de boa parte construir as próprias canoas, talhadas em troncos de árvores. Às vezes, os irmãos ou pais ajudam. Sem se importar, acabam por contribuir com a exploração, uma espécie de ganha-pão da família.

    Míriam, 14 anos, é vítima da exploração sexual há dois anos. A primeira vez que entrou em uma embarcação de carga tinha 12 anos. Era virgem. “Tive um pouco de medo, mas minha amiga disse que tudo ia dar certo e que nem ia doer”, conta. “Ela mentiu porque doeu. Mas depois eu ganhei dinheiro e nem fiquei brava”, lembra. Míriam não tem notícias do pai, que separou-se da mãe e partiu para Belém. O irmão pesca camarões com cestas presas em árvores. Os pescadores aproveitam o sobe-e-desce da maré para capturar os crustáceos. Ele usa o mesmo casquinho que a irmã para buscar o fruto da pesca. Quando é ele quem está com o barco, Míriam segue em canoa. De uma das amigas. Não pode perder tempo.  

*Os nomes das menores citados são fictícios


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