Crianças na estrada
Correio Braziliense - 22 de novembro de 2006 - No Vale do Jequitinhonha, jovens são cobiçadas pelos motoristas que cruzam a BR-116. Garotas ignoram que estão sendo vítimas. Ou que a exploração sexual é crime
Por Erika Klingl
Todo dia, no fim da manhã, as irmãs Daniela e Fabiana, de 15 e 16 anos, andam 3 km da fazenda onde moram até a BR-116, a Rio-Bahia. Usando chinelos e roupas puídas, as duas só aparentam a vaidade comum à idade quando olhamos em seus rostos. O relógio marca 11h20. Ambas estão com a face coberta de maquiagem. As cores usadas pouco combinam com o jeito de meninas. Tampouco com o horário. Nos olhos, sombra azul. Na boca, batom vermelho escuro. “Compramos um estojo por R$ 3 no bazar”, conta Fabiana.
As irmãs descem o morro até a rodovia para aproveitar a parada dos caminhoneiros. Na hora do almoço, podem ganhar uns trocados. Trocados mesmo. Dificilmente mais do que R$ 15 por dia. As duas são vítimas da exploração sexual. Parte do dinheiro vai para os pais, que trabalham na roça. O restante é gasto em compras: um pequeno estojo de maquiagem, brincos e perfumes baratos. As meninas moram em um dos lugares mais pobres da Região Sudeste, o Vale do Jequitinhonha.
Depois do almoço, Daniela e Fabiana não voltam para casa. Continuam às margens da Rio-Bahia esperando o pôr-do-sol. É quando os motoristas de caminhão aproveitam os quartos e a segurança do posto, a 80km da divisa de Minas Gerais com a Bahia, para repousar. Só as irmãs não descansam. Voltam para casa à noite. É a única hora que Daniela tem medo. “Sempre rezo para não aparecer bicho, principalmente cobra e aranha”, confessa. Ela não tem medo da exploração, mesmo usando camisinha raramente.
A falta de temor não significa que as duas estejam conformadas com a vida que levam. Simplesmente não enxergam outra opção. Fabiana não freqüenta mais a sala de aula. A escola onde estudava só vai até a 5ª série. Mas mesmo quando ainda tinha o que estudar, Fabiana não levava os estudos a sério. “De que ia adiantar prestar atenção no que a tia falava se eu não ia poder continuar os meus estudos?”, pergunta. Ouvindo com atenção, Daniela, que está na 4ª série, concorda com a cabeça. E completa: “Só vou para a escola de vez em quando. E mesmo assim é porque a minha mãe quer”, afirma. Ela está consciente de que seus dias de estudante estão próximos do fim.
A BR-116 é palco de outras tragédias. Meninas de cidades como Cachoeira do Pajeú, Medina, Itaobim, Divisa Alegre e Pedra Azul ficam em postos de combustível, pontos de venda de mel e queijo, além dos tradicionais restaurantes de beira da estrada. Acabam sendo prostituídas por R$ 5 ou R$ 10. Apesar disso, a rede de enfrentamento da exploração sexual na região sofre para tirar as meninas da situação.
O Centro de Referência da Assistência Social de Medina, responsável há quatro meses pelo atendimento de crianças e adolescentes vítimas de exploração e abuso sexual, tem 40 vagas. E só atende sete meninas. A Associação do Projeto 18 de Maio, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), também tem estrutura para atender 50 vítimas. Mas apenas 15 estão recebendo atenção. Todas mulheres adultas. Nenhuma possui histórico de exploração sexual. “Nosso público-alvo são pessoas vitimadas pela violência sexual, mas não conseguimos atingi-los”, admite Dagmar da Silva Amaral, coordenadora da associação. “As meninas se excluem, colocam-se à margem das políticas públicas e simplesmente não aparecem”.
Na região impera a falta de diálogo sobre sexo. “Esse é um dos principais tabus do norte de Minas Gerais. As famílias, muitas vezes, são hipócritas e tratam os adolescentes como se não tivessem dúvidas, desejos ou curiosidade”, observa Élbio Ramalho, conselheiro tutelar de Medina. Em casa ou nas escolas, o assunto é proibido. A conseqüência se mostra cruel. As meninas não sabem que são vítimas. Ou que exploração é crime.
Bruna e Anne são atendidas pelo conselho. Descobriram a sexualidade nas ruas, assim como a maioria das meninas e meninos do Vale do Jequitinhonha. “Não ouvi na escola falarem de sexo e nem de camisinha. Na verdade, só falavam de coisas chatas”, informa Bruna, 14 anos. Ela saiu da escola este ano. Estava na 3ª série, depois de ser reprovada por duas vezes na 2ª série. “Não consigo ir bem em matemática. Acho que sou burra mesmo”, lamenta. A mãe é alcoólatra e já agrediu a filha. A menina ganhou as ruas de Medina há seis meses. Queria arrumar dinheiro e calar a fúria materna.


