Vítima denuncia dois aliciadores
A Tarde - 09 de novembro de 2006
Por Edson Borges
Uma vítima de tráfico internacional de mulheres foi interrogada, ontem, em Feira de Santana (a 109 km de Salvador), por procuradores da Justiça italiana. K. Z. (*) contou detalhes do que sofreu depois de sair da Bahia, para tentar mudar de vida em Roma (Itália), mas acabou prostituída. A vítima relata que outras mulheres do interior baiano já foram levadas para a Europa, com o propósito de exercer a prostituição e trabalhar em boates. Apesar do risco de vida que passa, uma vez que os acusados do tráfico de mulheres também são apontados como envolvidos com traficantes de drogas, a baiana da região de Feira resolveu denunciar seu drama à Justiça da Itália. “Só assim eu consegui ser deportada e voltar para casa”, frisou K. Z., que tem o nome preservado pelos procuradores. A mulher foi interrogada pelos procuradores Diana de Matino e Adriano Iasillo, numa audiência presidida pela juíza federal titular de Feira, Lília Botelho, e com a presença do procurador da República do Brasil, Vladimir Aras.
Casal
Os dois procuradores vieram ao Brasil cumprir uma missão da Justiça italiana, no sentido de ouvir para o processo a vítima do tráfico. O processo é movido contra um casal. A mulher é brasileira e o marido, um italiano. “Ela anda pelo interior, pegando mulheres e levando para a Itália. Ele mora num apartamento de cobertura em Salvador”, disse. Separada, mãe e, com 34 anos, ela alega que o desespero pela sobrevivência foi o motivo que a levou a tentar melhorar de vida na Itália. A família não tem nenhuma fonte de renda, na pequena cidade do sertão onde vive, a não ser o salário mínimo de uma aposentadoria da mãe dela. – Eu tinha sonhos, ilusões. Na realidade, a gente ganha muito dinheiro na Itália. A gente vê muito dinheiro todo dia, porque trabalhamos praticamente 24 horas por dia, mas a popona (cafetina) leva quase tudo”, lamenta.
Faturamento
A baiana disse que os preços do programa, pago em euros, variam o correspondente a R$ 130 a R$ 500. O mais barato é por pouco tempo, dentro de um carro, e o mais caro num hotel. “Eu faturava, diariamente, de R$ 750 a R$ 2. 300. Mas a popona sempre cobrava o que pagou pela minha passagem aérea, além de R$ 1. 300 mensais pelo apartamento e surgiam outras dívidas”, salientou. K. Z. também contou que corria riscos de vida diariamente no local que freqüentava para atrair clientes, pois disputava “clientes” com outras prostitutas, homossexuais e tran sexuais. “Os tran sexuais e homossexuais não toleram a concorrência de mulheres, principalmente as brasileiras. Um deles tentou me espancar com uma barra de ferro. Uma romena apanhou tanto que ficou em coma”, lembrou. Ela conta que só conseguiu voltar ao Brasil, porque procurou a polícia e ameaçou suicidar-se, se não fosse deportada. “Fui interrogada, contei tudo e depois me mandaram de volta”, explicou. O procurador Vladimir Aras anuncia que, independentemente do processo da Justiça italiana, ele vai começar um procedimento para investigar o tráfico de mulheres da região de Feira para a Europa. (* iniciais fictícias)


