Literatura Afro Negro Brasileira?
O Globo 28 de abril 2007
Rachel Bertol Enquanto na sociedade a exclusão de negros tem sido intensamente debatida - com polêmicas em torno das cotas universitárias, dos remanescentes de quilombos, de mais um estudo que revela ser praticamente impossível definir, pelo DNA, a origem étnica dos brasileiros -, a literatura também se consolida como campo fértil para revolver o tema.
Neste 2007, o movimento dos escritores ligados à identidade "afro-brasileira" - aspas por causa da polêmica que envolve a designação, como veremos - vai marcar posição com lançamentos que indicam uma maturidade semeada ao longo de anos.
Um dos destaques é o aniversário dos "Cadernos Negros", criados em 1978 para dar visibilidade à produção de autores que não conseguiam espaço no mercado editorial. Os "Cadernos" chegam a seu 30°número com uma edição especial, que será lançada com patrocínio da Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial (Seppir), da controversa Matilde Ribeiro (em fins de março, ela ganhou o noticiário ao afirmar "ser natural" a discriminação de negro contra branco no Brasil).
Outro marco deste ano será o lançamento de "Afro-descendências - Antologia crítica da presença afro na literatura brasileira", pela editora da UFMG, com organização do professor Eduardo de Assis Duarte, autor de "Machado de Assis afro-descendente" (Pallas). O livro, com 900 páginas e três volumes, reunirá uma amostra da produção de 125 escritores, de Maria Firmina dos Reis, maranhense nascida em 1825, passando por Lima Barreto e chegando a contemporâneos como Conceição Evaristo, do elogiado "Ponciá Vicêncio" (Mazza, 2005), que será lançado nos Estados Unidos até o fim do ano. Todos são autores arrolados no portal Literafro (www.letras.ufmg.br\/literafro), enciclopédia virtual em fase de experimentação.
Assim como a antologia, o portal compõe o Projeto Integrado de Pesquisa Afro-descendências: Raça\/Etnia na Cultura Brasileira, apoiado pelo CNPq e coordenado por Duarte, com 54 doutores de 32 universidades brasileiras e estrangeiras.
Dicionário sobre tema será lançado Também este ano, o ficcionista, compositor e estudioso Nei Lopes lançará "Dicionário da Literatura Afro-Brasileira", cujo texto entregou recentemente à editora Pallas. O livro, um derivado da sua grandiosa "Enciclopédia brasileira da diáspora africana", certamente se tornará referência para quem tem interesse em conhecer o papel do negro na literatura brasileira. Há verbetes para autores afro-descendentes, personagens negros da nossa literatura, como a Bertoleza de "O cortiço", de Aluisio Azevedo, e para livros com a temática do universo afro escritos por "nãoafros", como Jorge Amado.
O dicionário de Lopes é um exemplo de que a questão da literatura afro-brasileira envolve muitas sutilezas. Uma delas é descobrir quem deve ser afrobrasileiro - o autor ou a obra? Haveria alguma especificidade nessa escrita? Além disso, qual a pertinência de tal recorte: tratase de uma estratégia políticoidentitária que poria em segundo plano a obra de arte? De acordo com Lopes, cuja introdução ao dicionário é praticamente um manifesto, somente afro-descendentes conseguem fazer literatura afro-brasileira.
Já o poeta Cuti, pseudônimo de Luiz Silva, um dos fundadores dos "Cadernos Negros", afirma que o verdadeiro artista, qualquer que seja sua origem, tem como transcender sua realidade e fazer uma literatura que se identifique com a vivência dos negros. Mas ele defende a designação "negro-brasileira", que nos distanciaria de "uma colonização africana" e da idéia de descendência, já que mais importante seria a vivência - por exemplo, a vivência do preconceito.
Com outra posição, o professor e escritor Domício Proença, único afro-descendente que atualmente integra a Academia Brasileira de Letras (ABL), não acredita em nenhuma dessas designações - "que só aumentam o espaço do preconceito", diz.
Na sua visão, existe apenas a literatura brasileira.
A discussão em torno da questão literária, que à primeira vista pode soar restrita, compõe o quebra-cabeça das novas, e polêmicas, discussões identitárias no Brasil - portanto, não se refere apenas aos negros e nem só à literatura, mas à maneira como a sociedade se vê, de forma geral.
Ganha relevância, também, com a Lei 10.639\/2003, que obriga o ensino da cultura afro-brasileira nos colégios. De acordo com Esmeralda Ribeiro, do movimento de escritores Quilombhoje, responsável pela edição dos "Cadernos Negros", o objetivo da lei é que a cultura afro-brasileira, em vez de tema de uma disciplina exclusiva, como muita gente a entendeu, passe a ser ensinada nas que já existem, como história ou literatura - o que só faz aumentar a pertinência do debate. Continua nas páginas 2 e 3


