Tenente admite que torturou guerrilheiros
Jornal do Brasil - RJ - 04 de dezembro de 2008.
BRASĂLIA
O tenente da reserva José Vargas Jiménez surpreendeu os membros da Comissão Especial de Anistia (CEA) da Cùmara ao confessar, ontem, que torturou ativistas do PC do B para arrancar confissÔes que levaram os militares a aniquilar a Guerrilha do Araguaia.
â Confirmo que torturei. JĂĄ pedi a Deus o meu perdĂŁo. Estava numa guerra e tive de cumprir ordens â disse o militar, que se transformou no primeiro comandante de grupos de combate a admitir oficialmente o que as Forças Armadas negaram nos Ășltimos 35 anos.
Revelado no dia 22 de março deste ano, em reportagem publicada pelo Jornal do Brasil, o relato de JimĂ©nez tem os detalhes do plano militar e a autenticidade de quem esteve no teatro de operaçÔes como combatente. Ele conta que para quem entrou na selva a partir de outubro de 1973 a ordem era exterminar a guerrilha â "atirar primeiro e perguntar depois" â a qualquer custo. Comandante de um grupo de 10 homens especializados em combates na mata, o tenente ficou na regiĂŁo de 2 de outubro de 1973 a 27 de fevereiro de 1974, perĂodo em que foram mortos, segundo suas prĂłprias anotaçÔes, 32 guerrilheiros. Ele mesmo aprisionou um camponĂȘs e um guerrilheiro (AntĂŽnio de PĂĄdua Costa, o PiauĂ, que figuram na lista dos desaparecidos). Mas viu vivos vĂĄrios outros ativistas que depois tambĂ©m desapareceriam.
Na confissĂŁo que mais chocou os deputados, JmĂ©nez detalhou o mĂ©todo que usou para torturar um camponĂȘs. Disse que, como o preso se recusava abrir o que sabia sobre a guerrilha, amarrou-o num pau viveiro de formiga, com o corpo lambuzado de açĂșcar e a boca cheia de sal. Quando as formigas começaram a picar, o camponĂȘs nĂŁo aguentou e começou a contar tudo.
â Ă hipocrisia dizer que nĂŁo houve tortura â afirmou.
Irritado com a discussĂŁo sobre revisĂŁo da lei de anistia para alcançar torturadores, o militar disse que se tivesse atuado no Araguaia, a ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil â que prestava depoimento numa sala ao lado â nĂŁo estaria viva hoje.
No começo do depoimento, JimĂ©nez admitiu tambĂ©m que sabia de locais onde vĂĄrios corpos de guerrilheiros foram abandonados e atĂ© se dispĂŽs a voltar Ă regiĂŁo â acompanhado de mateiros que trabalharam para o ExĂ©rcito â para apontĂĄ-los. Diante a reação dos deputados, recuou e disse que nĂŁo mais colaboraria com a comissĂŁo. Antes, admitiu tambĂ©m que em 1990 resgatou nos arquivos militares documentos que oficialmente as Forças Armadas negam existir. O deputado Daniel Almeida (PCdoB-PI), presidente da CEA, vai pedir que o MinistĂ©rio PĂșblico Federal investigue a confissĂŁo do militar. Ele acionarĂĄ tambĂ©m os ĂłrgĂŁos do governo que buscam os corpos dos guerrilheiros desaparecidos.


