Feto terá indenização por tortura na ditadura
Correio Braziliense - 09 de fevereiro
Por ter sido considerado torturado durante o regime militar, ainda na barriga da mãe, João Carlos de Almeida Grabois, filho da ex-guerrilheira Criméia Grabois, pode ser indenizado, na próxima terça-feira, no valor máximo R$ 39 mil a ser pago pela Comissão de Ex-Presos Políticos de São Paulo. Em 2004, a comissão já havia reconhecido o feto como preso político e vítima dos torturadores.
Grávida de sete meses quando foi presa e levada para o DOI-Codi, Criméia foi torturada com choques e espancamento. O bebê nasceu com afundamento no peito, segundo a família. “Ele foi perseguido antes de nascer. Pagou pela trajetória política do avô, da mãe e do pai, que tinham o sobrenome Grabois”, disse a tia de João Carlos, Amélia Telles. João Carlos recorreu da primeira sentença, que determinava o valor mínimo para este tipo de indenização, que é de R$ 22 mil.
Críticas
Representante das Forças Armadas na Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos do governo federal, o coronel da reserva João Batista Fagundes rebateu as declarações do secretário de Direitos Humanos do governo, Paulo de Tarso Vannuchi, que anteontem defendeu punição aos militares que torturaram militantes políticos durante a ditadura. Para o coronel, não cabe interpretação da Lei da Anistia, que, no seu entendimento, preconiza o completo esquecimento. “A Lei da Anistia veio para dizer que os fatos anteriores a ela simplesmente não existiram. É o completo esquecimento. É ampla, geral e irrestrita”, disse o coronel Fagundes.
Paulo Vannuchi saiu em defesa da ação movida pela família dos ex-militantes políticos César e Maria Amélia Teles para que o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra seja considerado oficialmente um torturador. O coronel Fagundes discorda. “A anistia é para os dois lados. Não se pode considerar a lei apenas para um lado. E esse pessoal da esquerda participou de assalto a mão armada. Foram anistiados. E alguns foram até contemplados com indenizações”, disse.
O coronel Fagundes afirmou que é hora de esquecer de vez o passado. “Se ficarmos remoendo esses fatos a vida toda, não vamos pacificar nunca a família brasileira. É preciso lembrar que a Constituição garantia às Forças Armadas um poder de polícia e de ser responsável pela segurança nacional”, disse. O Comando do Exército preferiu não se manifestar sobre as declarações do secretário de Direitos Humanos.


