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Tributo ao Almirante Negro

Correio Braziliense - 20 de novembro de 2008.

A coragem e a determinação que marcaram a vida de uma figura pouco conhecida da história brasileira, o marinheiro João Cândido Felisberto, chegaram às salas de aula da Escola Classe 414, de Samambaia. A saga do personagem conhecido também como Almirante Negro, líder da Revolução das Chibatas, em 1910, encantou os estudantes do 1º ano do ensino médio da instituição.

O encontro entre os adolescentes de 16 e 17 anos surgiu após a leitura da publicação do Prêmio de Redação da Fundação Assis Chateaubriand deste ano que homenageou o marinheiro. Hoje, Dia da Consciência Negra, eles encenarão na escola a peça inspirada na vida de João Cândido.

Em junho, o colégio recebeu exemplares do caderno especial que contava toda a vida do líder. Filho de ex-escravos, João se alistou na Marinha do Brasil e não demorou a se revoltar contra o tratamento dado aos marinheiros, negros em sua maioria, e freqüentemente castigados com chibatadas — prática comum durante o período de escravidão.

A idéia de homenagear João Cândido partiu do professor de história que resolveu trabalhar o caderno em sala de aula como ferramenta de ensino das disciplinas, o que despertou o interesse das turmas. Após ler o material sobre a vida do almirante, Francisco Laranja comentou com a coordenadora da instituição, Heloísa Martins Ferraz, que o assunto daria uma bela peça e assumiu o desafio de levar para o palco de madeira, montado pelos alunos no pátio da escola, a obra adaptada.

As duas apresentações do Tributo a João Cândido, marcadas para as 10h30 e 16h30, devem ser assistidas pelos 1.150 alunos do centro de ensino. Durante todo o dia serão realizadas diversas manifestações culturais em homenagem à cultura afro-brasileira.

Montagem

Para transformar o sonho em realidade, foi preciso o trabalho em equipe de todos os envolvidos no projeto. O professor, que faz sua estréia no mundo das artes cênicas, dividiu os alunos em dois grupos: produtores e atores. Como a história é vivida por marinheiros, os meninos ficaram concentrados no palco; as mulheres ocuparam seus espaços na produção. A animação da turma é contagiante: eles constroem o cenário, objetos cênicos e se organizam para produzir o figurino típico do início do século 20.

Segundo Heloísa Ferraz, a peça ensaiada há um mês pelos estudantes agregou conhecimentos fundamentais para a vida escolar. “Como foi um tema trabalhado com muito cuidado nas salas de aula, eles estão bastante envolvidos com a história. Esse trabalho também ajuda com a auto-estima deles, o que acaba refletindo no rendimento escolar”, avalia. Já o professor Francisco Laranja destaca o resgate da história : “É importante porque falta ao Brasil reconhecer fatos importantes da cultura nacional. A Revolta das Chibatas não é um tema tão conhecido”, espera.

Concurso

O resgate do personagem ainda desconhecido de grande parte da população brasileira começou com a realização do 14º Prêmio Nacional Assis Chateaubriand de Redação — Projeto Memória que teve como tema João Cândido Felisberto e a Luta pelos Direitos Humanos. Para subsidiar as redações que seriam escritas pelos estudantes foi produzida uma publicação de 12 páginas com dicas de estudo e informações sobre a vida do Almirante Negro.

Se depender do intérprete de João Cândido, o estudante Rafael Cerqueira, 17 anos, a história será contada da maneira mais fiel e com o objetivo de fazer justiça à vida do almirante. “No começo achei que não daria conta, mas depois comecei a ler mais sobre a história dele e me interessei. Ele brigou pelos direitos dos marinheiros.”

Para o diretor do espetáculo, Rafael Hack, 17 anos, a apresentação na escola é apenas o primeiro passo. “Pretendo que a peça saia o mais perfeita possível porque é bom para mostrar para a nossa população que os negros já passaram por muita coisa. Com a peça, o tema de João Cândido será fixado na cabeça dos jovens”, avalia, com segurança.


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