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Especialistas apontam que violência feminina é retrato do sistema educacional

CorreioWeb - 29 de setembro de 2008.

Se algum dia as meninas já foram excluídas da atividade criminosa, hoje é justamente esta condição, a de ser mulher, que as torna atrativas do ponto de vista dos criminosos. A análise é da presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp), Quézia Bombonatto. Tem a questão da sedução feminina, o senso comum de que, por ser mulher, ela não ameaça tanto. "Muitas vezes entram nas gangues por esse papel feminino de fragilidade, de que ela não pode se defender. E, não podendo se defender, também não ataca. A presença dela muitas vezes representa um facilitador para a prática do delito", afirma a especialista.

Quézia Bombonatto diz ainda que o sistema educacional está em crise e a qualidade do ensino, ruim. A violência seria reflexo do problema educacional. Os pais perderiam parâmetros de educação e delegariam à escola esse papel. "Dentro do que é possível ela faz muito", avalia Quézia.

Além do distanciamento da família, a psicopedagoga aponta outro problema: a perda da autoridade do professor. "Hoje ele não pode colocar o aluno para fora de sala de aula, não pode reprovar, não tem autoridade. E não estou falando de repressão. Mas de limites", defende.

A experiência do promotor de Justiça Rubim Lemos, coordenador do Grupo de Apoio à Segurança Escolar do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, reforça o que diz Quézia. "Às vezes essas meninas são pagas para cometer delitos. Atendi um caso em que a menina recebeu R$ 100 para cometer um homicídio. Ela tinha 13 anos e executou o crime."

Rubim Lemos não consegue explicar por que as meninas têm se envolvido mais freqüentemente em atos violentos. "Elas eram mais blindadas que os meninos. Tinha-se um cuidado maior com a menina. Talvez a ausência da família, a violência urbana se agravando no seio familiar e na escola tenham feito com que elas se liberassem dessa blindagem", analisa.

A experiência diária de policiamento nas escolas tem mostrado, segundo o comandante do Batalhão Escolar, coronel Nelson Garcia, que o comportamento das meninas não é diferente do adotado pelos meninos. "Indistintamente, meninos e meninas estão se agredindo com a mesma violência exacerbada para resolver conflitos. Com essa história de ficar, um dia estão com um companheiro (a) e depois com outro (a)", cita. "Isso gera ciúme e o ciúme é extravasado com violência", diz.

Para reverter o quadro, coronel Garcia defende o cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). "Ainda há o senso comum de que o ECA protege o infrator e isso não é verdade. Ele é um instrumento moderno de proteção à criança e ao adolescente e, se cumprido, evita o envolvimento deles em atos infracionais."

Bullying

A prevenção da violência escolar deve começar na educação infantil, acredita a psicopedagoga e coordenadora do Programa de Educação para a Saúde Psicossocial da Escola Suíço-Brasileira, Birgit Mobus. Para isso, é preciso que as instituições contem com uma equipe capacitada para reconhecer que as crianças têm dificuldades diferentes das outras.

Um problema recorrente e que pode resultar em atos de violência física é o bullying, atitudes agressivas que ocorrem sem motivação evidente e que provocam sofrimento na vítima. No caso das meninas, o bullying se revela por apelidos, fofocas, isolamento de uma delas por parte de um grupo. "Alvos de bullying por longos períodos que não vêem outra saída partem para a violência extremada", alerta Birgit Mobus.

Uma das escolas visitadas pelo Correio tenta coibir essa prática. Ao primeiro sinal de desavença, as envolvidas são levadas à direção. Os pais são chamados. A família assina um termo de compromisso de que a situação não se repetirá pois, em caso de reincidência, a jovem será expulsa. "Conseguimos reverter o quadro de 2001, quando tínhamos muitas brigas e atos de violência", afirma a coordenadora pedagógica.

Diagnóstico a caminho

A Secretaria de Educação do Distrito Federal acaba de coletar dados para uma pesquisa sobre a violência nas escolas da rede pública. Segundo Mauro Glaisson, coordenador do Plano de Convivência Escolar, será a primeira vez que o governo vai trabalhar com informações concretas. "Teremos percepção real do que ocorre e conseguiremos fazer intervenções mais seguras", comentou.

O levantamento, segundo Glaisson, também servirá para acabar com mitos como "meus alunos não se envolvem com gangues" ou "os jovens são violentos". Fazendo uma autocrítica, Glaisson reconhece que há uma tendência de tratar a violência nas escolas com base no senso comum. "Mas às vezes ela (violência) é camuflada, etérea, abstrata. Não se conseguia fazer uma intervenção segura. Agora, ela será direcionada", pondera.

O governo elaborou ainda uma cartilha com lições de como lidar com a violência. "Via de regra nós, professores, não sabemos o que fazer. Não fomos preparados para lidar com isso", afirma o coordenador do plano. O governo prepara um curso de capacitação para os 42 mil servidores da rede pública de ensino para 2009.

Sobre a violência entre as meninas, Mauro Glaisson entende que é fruto de uma mudança na sociedade e no espaço conquistado pela mulher. Ele lembra que houve um tempo em que o macho delimitava o território. Hoje, a mulher também o faz. "As meninas brigam pelos meninos. E, quando tem uma mais bonita, ela é invejada por outras. Tudo isso é briga por território", comenta.

Para a professora Juliana Ribeiro de Vargas, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a escola ainda não encontrou uma forma de oferecer a essas garotas outra opção. "Continuamos dizendo que elas são atiradas, assanhadas, malcomportadas e não buscamos formas de trabalhar esse comportamento."

 

 


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